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Borba: Destino de fé no Amazonas

Borba-AM

Essa viagem aconteceu em 2014. Enquanto o País vivia a expectativa do início da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, eu e mais nove pessoas da minha família estávamos em um barco, no meio do Rio Juma, rumo a Borba.

Só que a história dessa viagem começa bem antes, para falar a verdade bem antes até de eu ter nascido. Alguns dias antes de falecer em 2010, minha avozinha contou para minha tia, que fizera uma promessa para Santo Antônio de Borba mas, que nunca conseguira pagar. Minha tia então prometeu que pagaria a promessa e alguns dias depois vovó partiu sem prévio aviso.

Uma viagem desse porte e levando em consideração o motivo exigiu um tempo de preparação. As pessoas precisavam se programar em relação aos seus trabalhos e a logística da viagem precisava ser definida. Pois bem, quatro anos depois estava tudo acertado.

O planejado era que nos encontrássemos no Careiro, distante 88 quilômetros de Manaus em linha reta, cidade em que vivi os primeiros anos da minha vida e onde minha família materna inteira viveu (e alguns ainda vivem). De lá continuaríamos de barco.

Existem outras formas até mais rápidas de chegar até o destino final, mas o objetivo era mesmo ir com a embarcação da família, e a família, para nos aproximarmos o máximo possível da “penitência” original.

Apesar de nenhum de nós conhecer aquele município, estávamos tranquilos por conta da experiência do meu tio no comando de barcos (adquirida durante anos fazendo recreio entre Careiro – Manaus – Careiro). A única dificuldade no caso seria acertar o caminho correto. Por isso, combinamos com um conhecido que se juntaria a nós no meio do percurso.

Travessia de balsa
Travessia de balsa do Ceasa (em Manaus) para Careiro da Várzea.

Saímos de Manaus no dia 10 de junho, uma terça-feira à tarde, sem pressa. Foi escolha minha já que não estava acostumado a dirigir na BR-319, ainda que o trajeto fizesse parte da minha vida desde a infância.

Careiro Castanho
Portal de entrada do Careiro Castanho.

Pernoitamos no Careiro Castanho, onde encontramos o resto da família que já estava por lá e os que chegaram depois.  Às 10h15 do dia 11 de junho estávamos devidamente embarcados e zarpando.  Nossa estimativa inicial era de que a viagem de ida duraria mais ou menos dois dias em virtude das paradas.

Seguimos pelo Paraná do Castanho, passamos pelo Lago Mamori e chegamos ao Paraná do Juma, onde nos encontraríamos com o senhor que seria nosso “guia” pelo atalho até o Rio Madeirinha.

Flutuante
Flutuantes no Lago Mamori – AM.

O rio estava cheio prestes a superar a cheia recorde de 2009, a maior já registrada na história desde que o volume das águas começou a ser medido. Era possível ver árvores praticamente submersas com apenas as copas fora d’água em lugares em que na seca elas ficam totalmente expostas.

Existem vários hotéis de selva por ali e muitas comunidades que eu não fazia ideia que existiam no meio da floresta amazônica. Enquanto o barco passava dezenas de turistas nos fotografavam e nós retribuíamos fotografando de volta, naquele momento nos tornamos atração para eles de alguma forma.

Como amazonense e amazônida fiquei envergonhado, confesso, por desconhecer que ali tão perto e ao mesmo tempo tão distante existem pessoas que vivem e sobrevivem da pesca, da agricultura familiar, do turismo, etc. E eu desconhecia.

Chegamos ao flutuante do senhor Jurandir, que seria nosso “guia” exatamente às 17h22. E aí tivemos o primeiro susto. Por um desencontro de informação ele esperou nossa passagem no dia anterior, como não chegamos ele foi embora em outra embarcação.

Decidimos então contar com a solidariedade do ribeirinho e seguir em frente, mesmo sem guia, pedindo informação por onde passássemos ou até encontrar alguém que soubesse o caminho e fosse conosco. Como a noite caía e nós não conhecíamos o caminho pernoitamos no meio do rio, atracados numa moitinha para evitar os carapanãs. Segundo minha mãe, quanto mais afastados ficássemos da beira do rio melhor seria para evitá-los.

Luar no Lago Juma
Luar no breu do Lago Juma

O segundo dia de viagem começou bem cedo, ouvindo rádio soubemos como estavam os preparativos para o primeiro jogo da Copa do Mundo. Às 6h30 já estávamos navegando e enfrentando uma leve neblina que ainda existia ali no Lago do Juma.

Aliás, erramos a saída do lago por conta da serração. Por sorte os ribeirinhos percebiam e sinalizavam que estávamos no caminho errado. Paramos para pedir informação. Era em terra, uma longa escada ligava o pequeno porto até a porta de entrada. O dono da casa reconheceu meu tio, dos tempos em que era comandante de recreio.

Seu Adão nos guiou através do furo e explicou as coordenadas para que chegássemos até Borba. Ele se despediu e voltou no rabeta, uma espécie de embarcação bem comum nos rincões do Amazonas (na verdade esse é o nome do motor, mas todo mundo usa para se referir a embarcação em si).

Seguimos em frente pelo Paraná do Autaz-Açu através do Rio Madeirinha. O relógio já marcava 20h quando os celulares deram área e de longe avistamos as luzes da cidade. Atracamos no porto meia hora depois. Quer dizer, no porto é maneira de dizer.

A frente da cidade fica tão cheia que os barcos precisam ser amarrados uns aos outros e os tripulantes precisam transitar dentro deles para chegar até a terra firme. Foi bem o que aconteceu conosco. Éramos a quinta embarcação.

Logo ali na orla, um Santo Antônio de 13 metros de altura recebe os visitantes e vigia a frente da cidade que é banhada pelas águas velozes do Rio Madeira. O monumento inaugurado em 1997 é uma obra de arte executada pelo artista plástico Marius Bell.

Festejos de Santo Antônio de Borba

Borba está situada à margem direita do Rio Madeira, a sul de Manaus, capital do estado, distante cerca de 150 quilômetros em linha reta.

No mês de junho vira destino de fé para os católicos, por conta da festa de Santo Antônio de Borba, considerada o maior evento religioso do interior do Amazonas.  Em 1993, o vaticano elevou a Matriz da cidade à Santuário; tornando-a Basílica.

As comemorações começam sempre a partir da madrugada do dia 31 de maio, com uma Alvorada Festiva e continuam com a trezena de Santo Antônio até o dia 13 de junho.

Foi difícil perceber a cidade assim que chegamos e o tanto de história, cultura e fé que estavam entranhados ali. Alguns subiram para apreciar o arraial que acontecia na praça da cidade. Outros preferiram ficar no barco e esperar o dia amanhecer para aproveitar o dia 13, último dia do festejo.

No último domingo do mês de maio a imagem de Santo Antônio é levada até uma comunidade próxima ao município (Acará), onde dizem ser o local aproximado em que a imagem foi encontrada por pescadores. Lá permanece até o final da tarde do dia 1º de junho, quando é levado de volta para Borba numa grande romaria fluvial denominada “Canoa de Entrada”.

Pela manhã, no dia 13, fomos à missa das 10h. Elas aconteciam a cada duas horas naquele dia. Durante a tarde voltamos para a grande procissão que encerra os festejos religiosos e antecede a última noite de arraial.

Milhares de romeiros vindos de diversos lugares percorrem as ruas da cidade em agradecimento ou pedindo alguma graça ao santo. A procissão termina com uma grande missa campal em frente aquela que é a única basílica no Norte do Brasil a ter relíquias de Santo Antônio.

Nós, em meio a eles estávamos lá por vovó. Entretanto, não perderia a oportunidade de fazer minhas preces ao santo. Quem sabe em breve esteja de volta para pagar a minha promessa.

A saga da volta

Depois que a última missa termina alguns barcos começam a sair. Como despedida e agradecimento pelo festejo, cada embarcação se encarrega de soltar fogos de artificio coloridos.

Monumento à Santo Antônio
Monumento à Santo Antônio.

Nosso plano inicial era sair pela manhã bem cedo. Só que outros barcos amarrados depois do que estávamos também começaram a sair. Meu tio achou melhor partirmos também. Exatamente 3h da madrugada deixamos o porto de Borba, na esperança de chegarmos ao Careiro Castanho naquele mesmo dia. Não soltamos fogos porque ainda não sabíamos dessa tradição. Ficou o registro para a próxima vez.

Se alguém pensava que a volta não teria grandes emoções pelo fato de já “conhecermos” o caminho, enganou-se completamente. Dizem que quanto maiores as provações, maiores as bênçãos. Assim sendo seremos bem felizes, porque o que aconteceu em seguida só pode ter sido provação divina.

Avançamos bastante até que as 8h da manhã o reversor do motor do barco escangalhou e ficamos a deriva, sendo levados apenas pelo vento e pela correnteza. Encostamos ao cercadinho do viveiro de peixes e encalhamos.

Mais uma vez a solidariedade daquelas pessoas nos ajudou a seguir viagem. O dono daquele cercadinho (que eu esqueci de perguntar o nome), veio até nós no seu rabeta e se ofereceu para buscar ajuda de uma embarcação maior, que pudesse nos rebocar pelo menos até a entrada do furo, onde seria mais fácil conseguir um reboque. Além disso, ele ainda nos presenteou com peixe fresquinho, que foi o almoço do dia.

O barco maior veio mas não estava muito bom, e por volta das 13h pregou também. Parece que entrou ar no motor e tivemos que parar para resolver. Logo voltamos ao prumo, por sorte ainda seguíamos a favor da correnteza.

Todos felizes por estarmos na entrada do tal furo, despedimo-nos e… Exatamente, não era ali. Estávamos em um lugar qualquer no rio, cercados de floresta e nada mais. O jeito foi descer o rabeta que estava guardado e buscar a verdadeira passagem para o Lago Juma.

O Luar
O Luar no Rio Madeirinha

Encontramos. Entretanto, o entardecer dificultava a procura por ajuda. Arriscamos atravessar o furo sendo rebocados apenas pelo rabetinha, antes que de fato escurecesse. Conseguimos! Foi difícil e demorado, engatamo-nos umas três vezes lá por dentro.

Essa brincadeira prolongou o tempo estimado de viagem. A essa altura deveríamos estar em casa, em Manaus. Ao invés disso estávamos novamente atracados em alguma moitinha no meio do rio para pernoitar.

Lago Juma
Segundo dia de retorno, no Lago Juma.

Assim que amanheceu continuamos a viagem apenas com o rabeta, pelo menos até o flutuante do Seu Jurandir, aquele que devia ter ido conosco. Lembra? A partir de lá ele nos rebocou com o seu barco. Já era noite quando passamos por um flutuante e paramos para comprar algumas coisas. Só então conseguimos comunicação com a família para avisar o que estava acontecendo e que todos estavam bem.

Pouco tempo depois resolvemos parar de novo para pernoitar. Dessa vez os carapanãs não deram sossego. Tomamos uma surra. Pela dor que as picadas causavam não posso imaginar o tamanho que eles tinham. Preferimos seguir, apesar da escuridão sem fim. Iluminados apenas pela luz da lua e as luzes do barco.

Chegamos no Castanho ao meio dia do dia 16 de junho, sãos e salvos, com dois dias de atraso e muitas histórias para contar. Pensa que tudo isso fez com que alguém achasse a viagem ruim? Nada! Acredito que a sintonia entre nós era tamanha, que no final tudo valeu a pena. E a promessa de vovó Erondina estava paga.

Fotos: Jorge Leitte

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